Cartas da pandemia

Mensagens sem remetente ou destinatários específicos; mapas da pandemia formados por impressões, pensamentos, desejos de compartilhar uma palavra ou uma imagem. Experiências poéticas, políticas, sensíveis inspiradas na reorganização da vida imposta pelo novo coronavírus. Todos estão convidados para essa composição coletiva, sem autoria identificada. Envie sua participação para contato@gepps.com.br.


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01 de junho de 2020


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27 de maio de 2020

Sinto alguma culpa por gostar de estar em casa; de todo modo, duvido que a maioria das pessoas circulasse tanto quanto lamenta esta impossibilidade momentânea e conforta-me pensar que uma nova normalidade logo se acomodará. Assim, ninguém precisará continuar a traçar planos dos inúmeros lugares que visitará quando enfim puder abandonar a quarentena; não sentirá remorso por não ter feito tudo o que poderia ter feito e não fez por qualquer motivo que fosse; não precisará cumprir as promessas movidas puramente pela ocasião; nem reclamará liberdade de qualquer tipo que já não estivesse devidamente programada. Por fim, sinto-me impelido a dizer que muitos pretendem sair à rua como se, para isso, bastasse colocar uma roupinha decente, destrancar a porta e se lançar às vitrines. Sair à rua é na verdade algo bem mais complexo, algo que talvez quase ninguém tenha feito ou o faça apenas raramente; é preciso implicação: despir a moral, abandonar a parte dura de si e exercitar a apreciação dos demais; é preciso tropeçar, dar de cara com o inesperado, surpreender-se com o que existe de singular no mundo. Há uma grave exigência nesse gesto, que talvez o faça político, caso se consiga de fato realizá-lo. Do contrário, deixar o confinamento da pandemia será apenas voltar aos confinamentos de sempre – de costumes, de classes, de gêneros etc. –, os quais só trazem algum conforto porque fomos por toda a vida amestrados a consumi-los e com eles viver razoavelmente bem.

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26 de maio de 2020

Vou contar uma história....
Sabe aquela semente do passado?
Plantada e bem cuidada?
Pois sou um dos rumos dessa transformação, da escuridão para a luz dos dias, o crescimento do movimento artístico, feminista, do movimento hippie, do LGBTQ+ e do anarquista. 
Carrego comigo a semente dessas lutas cheias de pressão e ocupação dos espaços.
Lembro com o meu corpo das conquistas sociais, de expressão, econômicas e sexuais.
Muita luta para se manter fiel ao que se acredita
Que cor você vê nisso tudo? 
Em quem você vota?
Quantos pássaros tem dentro de você? 
Sua terra está pronta para morrer?
São tantas cores que pulsam 
e mais uma vez a arte presente para que isso aconteça e estejamos claras para o futuro da nossa cabeça 
Consciente de que não é qualquer palavra, um sorriso fascista na tela ou uma mentira mal contada 
que faz com que agente esqueça.
Eu mergulho e volto com mais oxigênio
Pego uma pedra no fundo e faço junto construir um novo terreno
Desintoxicando esse absurdo 
Alimentando com libertários frutos 

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25 de maio de 2020


Você que respira o tempo

Posiciono as palavras para mantermos as florestas vivas
Sementes estabelecendo contato com folhas
Navegando no Oxigênio dialogado com a atmosfera
No ritmo quase zero de poluição, destruição, explosão
Ar para a nação
do negro azul da mata se ouve o canto mágico do íntimo isolamento
a flor de cor rara
o rio que é parente e reflete nossa cara
a experiência de viver sem estar em extinção
O olhar atento do macaco bebendo água
o imaginário que cria uma paisagem viva
feito rupestre,
grava a imagem com sangue
desenha a cosmovisão no futuro de sua nutrição
Festejando nenhuma mensagem de amor sem resposta
De povos originários aumentando sua população com sua memória
Da floresta diversa energizando a dinâmica dos corações e
poetizando a história
Da nossa casa terra
Bem preservada, em glória

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19 de maio de 2020


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14 de maio de 2020 

Impossibilidade de ajuste das distâncias 

Hoje sonhei, sonhei três sonhos diferentes noite adentro e que me levaram casa afora. 
E porque sonhei lindamente, não queria viver o dia de hoje. Tive medo, medo do abismo que separa o que no mundo onírico é possível do que no mundo real tem sido improvável. As distâncias estão sempre em questão recentemente. A distância mínima estabelecida pela OMS, a distância ditada por uma estranha dança nos supermercados, a distância de nossos familiares e amigos. O isolamento estabelecido nos obriga a sentir as distâncias. Não há a justa distância tão sonhada pelo Roland Barthes, um ajuste tácito para uma boa convivialidade. Há apenas o autoritarismo das distâncias que se atualiza a cada novo pronunciamento dos governantes diante dos avanços numéricos produzido pela proliferação viral. Mas a distância da qual me referia inicialmente não é a distância medida em metros, quilômetros ou unidades de medida que estamos aprendendo a nos acostumar: marcações nos chãos de farmácias, nas filas dos bancos, fitas de isolamento nos balcões dos estabelecimentos considerados serviços essenciais. A distância que mais me assusta é aquela que impossibilita encarnarmos experiências. Àquela que nos lança a divagações fantásticas, àquelas que nos transportam para mundos imaginários (o que inclusive nos possibilitam suportar o existente e projetar futuros) mas que nem sempre nos devolve algum senso de realidade. Estive incomodada com o meu medo de não querer sair do sonho e retomar a rotina de um dia qualquer nesses tempos de pandemia. Um dia qualquer em que ser quarta ou domingo faz pouca diferença ou ainda, ser manhã ou noite pouco muda. Dias em que, modulados por encontros apenas na tela, parece retrocedermos à época em que a terra era plana. Achatada, aflijo-me em reduzirmos os encontros anteriormente calorosos a uma adaptação forçada de nos vermos em gride das telas, cada um se mantendo em seu quadrado, mutilando nossos corpos e reduzindo-os a um plano pensante, cerebral, comunicacional, daqueles habilitados pela articulação discursiva. Quero volumes, cheiros, sensações. Devolvam-me a possibilidade de partilhar o suor de um dia de trabalho, o odor de uma fornada recém saída na padaria, de não cair no metrô só porque outros corpos me sustentam, espremida, por favor, quero sentir enjôo no cinema daquele cheiro de pipoca com manteiga da pessoa ao meu lado ou dividir uma mesa de bar, jogar conversa fora até que as portas baixem. 

ENCARNAR AFETOS, COM-TATO, SENTIR EXPERIÊNCIAS! 

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12 de maio de 2020


...partilhas possíveis, alegrias improváveis, incertezas e efemeridades, alimento para a alma. Nutrir e sustentar no tempo os afetos em meio a pandemia!

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11 de maio de 2020

Hora do Brasil

Dias atrás, à janela, cantamos parabéns para celebrar o aniversário da Melissa, minha vizinha do andar de cima, que completou dois aninhos de idade. Dias, anos, já não tenho certeza; tudo flutua numa espécie de vazio sem marcas ou diferenciação. Todo dia é o mesmo, dois meses se passaram, seriam dez? Uma funcionária da portaria do condomínio se contaminou, fiz as contas, isso foi há vinte dias, o vírus sobrevive até setenta e duas horas em superfícies plásticas ou metálicas, isso significa duzentos e cinquenta e nove mil segundos. Aguardo três vezes o elevador, que sempre chega ocupado, três dias para descer à portaria e retirar a encomenda que ainda não chegou. Aguardo um tantinho mais, sem problemas, tenho compromisso não. Parece que a pandemia durará até o final do ano, até que se postergue outra vez a quarentena, sessentena, oitentena. Corro atrás da ilusão, permaneço sempre atrás. Fazem testes de vacina em humanos do Reino Unido. Unido! Deve chegar ao mercado anteontem. Alguém duvida que formará aglomeração? Fiz aniversário no último sábado. Dois aninhos. Decidi ficar mais velho apenas quando puder cantar parabéns a mim mesmo, sobrevivente. O vírus não sobrevive porque não morre nem vive, não é um ser, é um código genético tão virtual quanto os de computador; como alguns desavisados têm a audácia de afirmar que nasceu na China? Como podem existir tantos funerais? A humanidade nasceu na África, faleceu na Páscoa, Dia das Mães, feriado de Natal, tudo emendado agora. Como ter certeza de alguma coisa? Meu relógio de pulso permanece na gaveta da escrivaninha que herdei de uma tia que ainda não morreu, seus ponteiros giram no sentido contrário. Foi em mil novecentos e sessenta e quatro que crianças fardadas desfilaram em blindados, buzinaram em porta de hospitais, hastearam bandeiras coloridas e exigiram que os pobres voltassem ao trabalho. Ouço mamãe bater com colher de pau na panela, convocando-me para o almoço; a mesma colher com que me bate quando desacato suas autoridades. Os vizinhos cantam na janela. Um hino. De louvor. Desculpe, já é meia-noite, preciso voltar aos meus pesadelos.

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8 de maio de 2020

Terapia intensiva

Por que falar agora (ou nunca)
ou num momento qualquer
suspender a voz, as tintas, o tônus
– o que temos, se nada resta
tão pouco que se torna impossível
“sobre”viver entre
residências
desistências
imobilidades
de corpos tão fragilizados, oscilantes, suspirados
como as pausas nas chamadas de vídeo
com seus espectros de aspecto pacato
absorvidos pela iluminação artificial das telas de LED.

Como é possível estabelecer conexão
à fria luz de maio
meia estação, relação entrecortada por 
tudo que falha e só faz escancarar a ruína
abismal, escara de um estado de inexistência
falência múltipla de órgãos públicos
quando lá do alto
do planalto berra-se:
e daí?

De seu leito
há quem sinta que é possível ainda
falar porque é preciso
com a voz, as tintas, o ímpeto derradeiro
dar a ver e a ouvir os aflitos
a quem tal violência disparada a esmo
atinge o âmago como uma bala
nem tão perdida assim porque sempre 
fere o mais desprotegido
a existência mínima que só resta
falar e resistir, pois é fundamental
jamais calar diante das ordens de assassínio
e desaparecimento imemorável.

Enquanto houver voz, ouvirá vida.

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8 de maio de 2020


Tédio com T bem grande pra você

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2 de maio de 2020

Aumentam os números lá, diminuem os números aqui.
Perdem a consciência por lá, e ganham consciência  aqui.
Morrem por lá, renascem aqui.
Gritam por lá, se calam aqui.

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28 de abril de 2020

Encontro moedas na rua porque tenho sorte – ao menos é o que dizem as pessoas que não olham para baixo. Dia desses eu aguardava numa fila de mercadinho, que antes de tudo requer imaginação, dada a distância entre um cliente e o seguinte. Foi curioso porque a meu lado, dois metros para lá, um sujeito parou com uma garrafa de água na mão, e no mesmo instante outro se posicionou atrás de mim, também a dois metros, ocultado pela gôndola de produtos de limpeza. Eles não se viam, e ambos se imaginavam na sequência da fila. Quis avisá-los do engano. Quem me dera levantar a voz, romper a mordaça. Não pude. Em vez disso abaixei a cabeça mais uma vez, em pesar pela vitalidade que tem se esgotado na vala comum, coberta por terra seca de lágrimas. Comprei mantimentos, provisões – antes chamadas bananas, queijo, um pé de alface, meia dúzia de batatas, um pacote de macarrão –, e demorei para guardá-las nas sacolas. Não demorei muito, isso é certo, apenas um tanto a mais do que o suficiente para o segundo na fila avançar e me ameaçar com a sua proximidade. O homem com a garrafa de água teve preferência, não sei como foi a negociação. Com dinheiro em mãos ele logo pegou o troco e me ultrapassou, e sua pressa deixou cair uma moeda na calçada. Ouvi o barulho. Ei, disse eu, espontaneamente. Sua moeda! Ele se virou, já lá adiante, gesticulou qualquer coisa sem jeito e continuou seu caminho. Era uma moeda de 25 centavos. Soube assim que 25 centavos não valem o risco de voltar e pisar o chão que eu pisava, ali onde falei alto, mesmo de máscara. Assim como esta minha constatação na calçada do mercadinho também não vale nada, é somente mais um número que não dá conta do montante perdido a cada nova contagem oficial.

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27 de abril de 2020


Poética Manual do Medo

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26 de abril de 2020

Estamos na quarentena, mas eu estou na rua, na Vila Madalena. Eu estranho, pois as ruas estão cheias e as pessoas estão agindo normalmente. Encontro com a minha irmã, está carregando meu sobrinho. Ela olha para mim com cara de assustada e começa a justificar que só está passeando com o Davi, repete isso várias vezes, afirma e reafirma. Continuo a andar, mais alguém conhecido! A Ju. Ela vê a minha cara de quem não está entendendo nada e me explica que agora as pessoas podem sair da quarentena aos finais de semana, para não ficarem loucas. Está perto da hora do almoço, combinamos de comer juntas. Mas a Ju tem que pegar um negócio em uma loja e já me encontra. Como eu não gosto de ficar esperando resolvo entrar em um shopping, vou para a parte das crianças, onde tem um lugar com uma piscina coberta de ondas. Nossa, como é gostoso nadar, ser levada pelas ondas, sentir a energia da água, ficar boiando. Tem algumas crianças aqui comigo, alguns são meus alunos. Nos divertimos bastante juntos. Perco a noção do tempo e ao perceber isso fico preocupada com o almoço com a Ju. Saio da piscina e vou onde guardei as minhas roupas, busco o meu relógio. Olho as horas. Olho as horas novamente. Vejo os números mas não sei que horas são. Olho de novo. É um relógio digital, vejo a sequência de números mas não consigo traduzir que horas são. O Edu, namorado da Ju, aparece e me pergunta que horas são. Olho de novo o relógio. Nada. Falo para ele que não sei que horas são. Mas não ligo muito para isso. Resolvo voltar para a piscina, perto da porta as crianças estão indo embora, o Gabriel, meu aluno, me fala que o homem disse que vai fechar em dez minutos. Mesmo assim eu entro, penso que vai ser bom ficar sozinha um pouco, boiando, relaxando. Quando piso na água, as luzes se apagam. Começo a ouvir um barulho de água escoando por algum ralo. Estão esvaziando a piscina. Me troco no escuro e, quando vou sair, não consigo. Mexo a maçaneta, mas a porta não abre. É uma fechadura eletrônica e, como desligaram a luz, não abre mais. Estou presa. Acordo.

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24 de abril de 2020

Ainda aprendo, com dificuldade e alguma curiosidade, esses sutis gestos de horror que dominaram o espaço entre mim e o outro. Se antes tal meio parecia esvaziado, agora acolhe a coreografia da tragédia que escapa à cena e se realiza no hall do condomínio, na calçada, nos corredores do mercadinho, onde cabe apenas uma pessoa por vez: devo olhar antes de avançar, ter certeza de que estarei só enquanto o outro, que também precisa fazer seu bolo, titubeia, dá um passo atrás, tenta não violar meu cordão imaginário de isolamento. E se por acaso erro o passo a dança desanda, como o creme que pretendia confeitar com este açúcar, essência, desejo. Os humores, vencidos, talham. A paranoia fermenta admiravelmente, por sua vez. Confunde-se com o cuidado comigo e com meus semelhantes, assassinos potenciais. Isolamento tornou-se atitude social. Cárcere privado eletivo. Os paradoxos não se eximem de aparecer para um café amargo. Dia desses, no trabalho, anunciou-se: ao manter distância você mostra ao colega que se importa com a vida dele. Não fosse terrível, seria divertido. Não fosse atroz, não sei. O tempo dirá. Espero. Mesmo os gestos mais estranhos, aos poucos, tornam-se banais. Há duas semanas eu diminuía o ritmo na calçada para observar meu reflexo mascarado nos vidros dos carros estacionados. Ontem fui beber água e a derramei por todo esse mesmo filtro que me cobre a boca, nariz, corpo, família, futuro.

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21 de abril de 2020

O tempo
Unidade de terapia intensiva

Talvez o que mais caracterize o ambiente da UTI seja
um certo estado de suspensão...
uma suspensão do tempo...
um susto, um suspiro
parece não ter fim...
um aperto, uma realocação das urgências e prioridades...

Um estado de aguardo enquanto as forças do corpo estão em combate,
Tentando fazer as regulações necessárias para restabelecer/estabilizar os parâmetros vitais.

Há o tempo que...
para os que não estão sedados,
não passa...

Para os que estão sedados,
nem sentem o tempo passar...

Para os familiares,
é tempo demais...

Para os profissionais,
o tempo parece o mesmo sempre...

O tempo para os que aguardam o transplante,
é longo...

Para aquele que vai para a cirurgia,
deseja que o tempo não chegue nunca...

Para aqueles em estado terminal,
o tempo parece que chegará para sempre.

Os tempos ganham larguras, espessuras, asperezas, angústias, profundidades e intensidades a todos que visitam à terapia intensiva.

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18 de abril de 2020


"me deixa ir pra fora para ver as coisas mais de perto por favor!"

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17 de abril de 2020


Sol maior
Mi menor

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15 de abril de 2020

Guardadas

as distâncias na fila
os vazios no horizonte
as câmeras no céu
os olhos na tela
os pássaros no aquário
as crianças no tédio
os pijamas no escritório
os silêncios no elevador
os medos no outro
as angústias no sofá
os amores na gaveta
as invisibilidades no catre
os monólogos na mudez
os ímpetos na despensa
as revoluções na panela
os sonhos no freezer
as vidas no microscópio
os desejos no exterior
as quebras na saída
as mordaças no app
os disfarces na rua
as esperanças na prateleira
os gelos na mão
os próximos na cova
as imprecisões no número
as imagens no obscuro
as sintonias no impossível
as violências no pronunciamento
bem embaladas e guardadas as
indevidas proporções.

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14 de abril de 2020

Falo com muitas pessoas ao telefone hoje. Cansei-me das mensagens de whatsapp. Não quero aguardar as respostas, quero ter um mínimo de contato simultâneo, sentir alguma reciprocidade; presença partilhada no mesmo instante me parece algo indispensável para seguir aceitando que ainda existo como humana. Não tão fundida ou confundida com as máquinas, os dispositivos eletrônicos que nos "conectam" em velocidades cada vez maiores que, no entanto, nem sempre garantem proximidade. Quero ouvir vozes. Vozes amigas, oscilações sonoras, de intensidade, frequência, volume e tom. Vocalização dos nós na garganta, sentir com os ouvidos a vibração dolorida do momento, o riso gélido, a lágrima que escorre, o peito apertado, a falta de ar misturados com intervalos habitados por gargalhadas de uma piada qualquer ou de algum humor possível também de ser habitado. Não aguento aguardar enquanto o outro me grava um áudio, visualizar o tempo sinalizado pela seguinte inscrição "gravando áudio...". Não quero sentir o desvio dos olhares que não se cruzam nessa nossa tela de cada dia. Sofro, me debato, grito, urro. Não quero viver assim. Ao telefone hoje, ouço vozes. Ouço sobre mortes que chegam cada vez mais perto, sinto a tristeza na voz que não sai, das palavras que faltam, das saudades que não cessam. Ouço a irritação das gerações que estão tendo que aprender na marra a lidar com esses dispositivos que não nasceram acoplados a seus corpos. Ouço por outro lado, aqueles pequeninos que partilham seus afazeres, mesmo sem muitas palavras, cada um de sua casa, brincando com seus brinquedos. Ouço também sobre o tempo que não passa, do desejo de pegar a bengala para dar um rolê, da reclusão sem sol, do período de engorda e das terríveis noites em que os olhos não se apagam. Ouço a minha avó de longe, contemplo-a de costas, faço um mínimo de movimentação para que não me ouça, para que não venha em minha direção. Troco com um amigo sobre o que será de nossos filhos, que invenções são possíveis para manter alguma saúde. Brincamos sobre as drogas que nós adultos acessamos para produzir algum estado de relaxamento e nos indagamos sobre quais poderiam ser a deles. Em meio a tudo isso ouço a locução de números que não param de subir, as mortes que não param de aumentar, ouço a caixa registradora da contabilidade humana a todo vapor, ouço estatísticas de todos os tipos, por bairro, por estado, por país. Nenhuma conta fecha. Ouço boatos, soluções mágicas, especulações de que medidas serão mais ou menos efetivas, o que diz a ciência, o que impõe o jogo político.
Ouço aquela respiração mediada por máquinas ventilatórias da UTI que não aguentei trabalhar nem por míseros três meses. Ouço a indignação daqueles que de seus sofás apontam o dedo para os que pelas ruas permanecem, ouço o julgo alheio insensíveis e inflexíveis na compreensão do outro. Ouço vozes, ainda prefiro ouvi-las, mesmo que ensurdecedoras, essas vozes contam, cantam, ganguejam, falham, trepidam e também se esgotam. Pela voz ouço portas, escancaram-se janelas. Ouço o arrombamento do grito humano, ouço a respiração irregular, arrítmica, sintomática mas que, apesar de tudo, ainda são ruídos do que é estar vivo.

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 a tênue linha da respiração: sopro maquínico


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14 de abril de 2020

o céu de abril - o céu se abriu
estamos em casa sob cada teto
mas não esqueçamos que  estamos sob o mesmo céu!




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9 de abril de 2020


A todxs amigxs profissionais de saúde, que corajosamente, e por vezes também, covardemente, saem de suas casas todos os dias e vão assumir esses nossos postos de trabalho, agradeço pelas partilhas, pelas trocas, esse cuidado mútuo que oferecemos, de maneira improvisada, do jeito possível, marcando alguma proximidade, mesmo sendo tão difíceis algumas distâncias nesse momento. Essa rede tecida dia-a-dia, com pequenos gestos, presenças possíveis, sustentando a possibilidade de seguirmos sustentando esse momento com tantas fragilidades. Gratidão, companheirxs nessa travessia!

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8 de abril de 2020


Do alto das minhas janelas

Vejo nada e o nada me devolve o olhar, incorporado 
nos demais moradores de apartamento alocados
diante de mim, atrás, ao redor, de esguelha
eles me olham do alto das suas janelas
não porque têm interesse, veja bem
na verdade eles não têm
nada melhor para ver, sou
o que lhes resta, o seu nada e
ao mesmo tempo tudo
o que resta
neste fim de mundo sem fim
nas alturas intermináveis, as horas
enquanto lá embaixo corre a imaginação
– o risco, o medo, o estranhamento
eles habitam algum lugar antes conhecido
onde estive sem saber, sem me dar
conta do que podia via a ser
hoje sei? espero
enquanto certa invisibilidade traiçoeira
aguarda, permeia, infiltra
não se deve agir como se nada estivesse acontecendo
e o nada acontece, de fato
realiza-se diante de mim
eu o vejo através das minhas janelas translúcidas
tão evidente que lá está
em algum lugar – quem duvida? daí
pretendo ver sem incomodar, ouso
ser visto para estar vivo, ser
reconhecido como um corpo
são – não apenas uma ameaça
eu que nunca liguei para isso, que preferi
passar despercebido, hoje me incomodo
com aquele que se oculta
nas cortinas para me evitar e evitar
cruzar os olhos comigo, mesmo
a uma distância segura, maior do que
os dois metros
os doze andares
as quatro semanas
a meio caminho do céu.

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6 de abril de 2020


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5 de abril de 2020

Minilápis de cor

Você estava prestes a sair para visitar sua avó
que não quer receber ninguém por causa do vírus enquanto
eu escrevia sentado à mesa do jantar
na verdade eu revisava um texto recém-esboçado enquanto
a caneta repousava à minha frente
é do papai?, você quis saber
e eu respondi que sim, afastando a caneta
num gesto de violência impensado, justificado
por uma pena de ouro e sistema de recarga a pistão caríssimos, pois
logo você voltou
com um conjunto de quatro minilápis de cor e um livrinho
de colorir, explicando que o encontrara em sua mochila
deixou comigo um minilápis
e antes de tomar o elevador com sua mãe me disse:
trabalha um pouquinho, trabalha?
Você adormeceu no meu colo
horas depois, quando eu ainda não cogitava dormir
por causa do trabalho atrasado em casa, tantos desejos programados
levantei do sofá com um livro na mão
recolhi o controle da TV, que como sempre
sua mãe largara em qualquer lugar
fui guardá-lo em um dos quatro buracos
do objeto que usamos para guardar controles remotos
– não sei como chama, tampouco temos tantos controles assim
eis que me deparo com apenas um buraco desocupado
os outros três continham, cada um:
– um minilápis de cor amarelo
– um minilápis de cor azul
– um minilápis de cor vermelho.
Sorri porque notei
não apenas que lá estavam eles
mas também porque percebi, só então
que você havia deixado comigo o minilápis
verde, sua cor favorita.

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31 de março de 2020


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28 de março de 2020 

Ir ao mercado em um sábado à tarde
não é mais como ir ao mercado num sábado à tarde

Há uma movimentação tácita, um des-contato e improvisação dos corpos que se deslocam por entre as gôndolas de forma coordenada. Não é uma dança, embora haja uma precisão entre as pessoas de manter a distância mínima recomendada. Um movimentar-se desconfiado, calculando os passos alheios e ajustando as passadas próprias. Muita tensão e desconfiança, nenhum contato visual direto. Todos à espreita, atentos à aproximação do potencial inimigo. Mascarado ou não, o outro se tornou ameaça, seja ele quem for. Não há olho no olho, houve também esta habilidade rapidamente adquirida: desviar o olhar, não se haver com avistar o que no outro pode haver de demasiadamente humano. 

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24 de março de 2020